Luís de Camões

Escrever é uma grande aventura. E quando quem escreve é um aventureiro, as histórias são assim: fantásticas, emocionantes, de grande emoção, capazes de durar centenas de anos com a mesma força e beleza.

A vida de Camões não teve a suavidade de alguns dos poemas: sendo um aventureiro, não dispensava uma boa briga, muito menos um namoro apaixonado. Por essas e por outras, em 1548, sofre o desterro no Ribatejo: isto é, fica de castigo durante uns tempos, sem poder voltar a casa; alista-se depois como soldado, vai para África e, em 1549, embarca para Ceuta, onde perde um olho direito numa escaramuça contra os Mouros.

Regressa a Lisboa, mas, pouco depois de chegar, no Rossio de Lisboa, mete-se em novo sarilho: dois mascarados lutam com Gaspar Borges, um funcionário da Cavalariça Real. Camões envolve-se na confusão. Acaba por ser preso e levado para a cadeia. A sua mãe, Dona Ana, vive a pedir perdão para os sarilhos que Luís arranja. O poeta é libertado, sob duas condições: pagar uma grande multa e embarcar para a Índia, para servir, durante três anos, na tropa do Oriente. Parte para Goa, na nau São Bento, comandada pelo capitão Fernão Álvares Cabral. Chega à capital da Índia portuguesa seis meses depois. É soldado raso. Como escreve sobre o que vê e sente, os seus poemas são de uma beleza e de um realismo incomparáveis.

Para ganhar dinheiro e alguma comida, escreve versos e autos por encomenda, em especial para um poderoso senhor, que os apresenta como seus a uma dama por quem está apaixonado. São muitos os soldados analfabetos e Camões escreve cartas para os seus familiares no Reino.

Como soldado, as aventuras de Camões, continuam. Parte de Goa em perseguição a navios mercantes dos mouros. Vai para a Ásia: primeiro Macau; e, pouco depois, naufraga nas Costas do Camboja. Diz-se que salvou a nado o mais belo dos seus poemas: Os Lusíadas.

É preso por dívidas e libertado pelo vice-rei Conde de Redondo, que o protege. Segue para Moçambique e só em 1570 regressa a Lisboa. Dois anos depois, sai a primeira edição de Os Lusíadas, que dedica ao Rei D. Sebastião. Em troca, o rei promete-lhe uma pensão, que nunca será paga. Morre na miséria - e, provavelmente de peste (em 1579 ou 1580), em Lisboa, apesar de para o Mundo se ter da lei da morte libertado!

 

 

Texto de Alexandre Herculano

Livro "Língua Portuguesa 4"