Ao regressar a casa, surpreendi-me com o cheiro diferente que envolvia toda a Pedra de Hera. Cheirava a açúcar queimado, a canela e a frituras.
Nessa noite, que demorava tanto a chegar, a nossa casa iria encher-se de gente. À volta da mesa comprida estariam os meus tios e os meus primos, a minha avó, minha mãe e eu. Ao todo, éramos catorze.
Quando entrei na cozinha, minha avó enfeitava com canela grandes travessas de aletria. Minha mãe, com o rosto muito vermelho, transpirada, fritava as primeiras rabanadas. Em cima da mesa estava um monte de pencas repolhudas, e no chão um balde cheio com as maiores batatas criadas no nosso quintal.
- Queres comer uma postinha de bacalhau assado? - perguntou minha mãe.
Não cheguei a dizer que sim, que era muito capaz de comer uma bela posta de bacalhau assadinha nas brasas muito vivas da lareira, muito bem regada com azeite aquecido, e temperada com um dente de alho partido em pedacinhos.
António Mota - Sonhos de Natal - Gailivro
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