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Sou um pinheiro vulgar

Sou um pinheiro vulgar. Ora estava eu dormindo em pé, muito regalado da vida, lá na minha terra, quando me foram acordar. Olharam para mim e exclamaram:

- Este é bom! É mesmo bom!

Fiquei vaidosíssimo. Estavam a dizer que eu era bom.

Que era bom, já eu o sabia de cor e salteado, mas que o afirmassem assim tão alto e bom som era coisa de causar admiração.

Vai daí, começaram a bater-me com um machado pequeno e teimoso que se fartava! Cada golpe que ele me dava, arrancava-me um pedacinho de força.

"Não há-de ser nada" - pensei eu, tentando agarrar-me mais e mais à terra que sentia fugir-me debaixo das raízes. Quando percebi que flutuava no ar, soube que não ia viver por mais tempo naquele sítio. E não me enganava.

Trouxeram-me para aqui e enfeitaram-me com mil e um presentes: bolas brilhantes, fitas de cores, levíssimos bonecos que baloiçam nas minhas agulhas verdes de pinheiro vulgar.

Iluminaram-me e todos olham para mim com um estranho ar de festa, de alegria.

Onde vim parar? Por que me admiram assim tanto? Onde está o mistério?

Serei eu, afinal de contas, não um pinheiro vulgar, mas um pinheiro diferente dos meus irmãos e amigos que ficaram lá longe, dormindo em pé, sossegadinhos no pinhal onde eu nasci?

 

 

"O Livro do Natal" de Maria Alberta Menéres