O senhor Afonso vivia numa casa muito pequenina e era muito mais velho que nós. Ele costumava dizer que tinha quarenta mais trinta anos.
Eu gostava muito do senhor Afonso e achava normal que ele tivesse quarenta mais trinta anos. Também achava natural que ele brincasse connosco, nos fizesse brinquedos de madeira, e que de vez em quando nos chamasse para dentro da sua cozinha escura e pobre e nos oferecesse pataniscas de bacalhau tão bem fritas e tão saborosas como só ele sabia cozinhar.
Quando vinha muita neve, nós não íamos à escola, que ficava longe da nossa aldeia, e o senhor Afonso também saía de casa para nos ajudar a fazer um grande boneco de neve. Púnhamos-lhe pauzinhos na cabeça a fazer de conta que eram cabelos. Uma cenoura para que o nariz ficasse bem comprido. Grãos de milho para que pudesse ver. Uma manga de uma camisola vermelha a fazer de conta que era uma gravata muito vistosa. E, finalmente, uma vassoura velha para que se transformasse numa bruxa e voasse de noite, se tivesse vontade.
Depois, com as mãos dormentes, ríamos muito e corríamos ao encontro das fogueiras para nos aquecermos. E o senhor Afonso recomendava:
- Estejam atentos. Se ouvirem barulho, saltem da cama. Se calhar, desta vez é que vai acontecer!
Quando vinha a noite, eu ficava muito ansioso. O que eu mais queria era ver o nosso boneco de neve a voar.
António Mota, Livro Avaliação do João, Gailivro
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